Valorizando seu dinheiro – II

Brasil: Império Independente!

Mil-Réis

Como toda grande mudança implica em “botar a casa em ordem”, com o Brasil não foi diferente. Com a independência proclamada em 1822 teve início o Império Brasileiro, tendo D. Pedro I como imperador. Seu período inicial foi marcado por profunda crise (êêê… já começou…) devido às dificuldades de organizar uma nova nação, pois toda gastança necessária resultou na diminuição da quantidade de ouro e prata em circulação, de modo que predominavam as moedas de cobre.

Aliás as moedas mantiveram o mesmo padrão das moedas do período colonial, sofrendo pequenas alterações para se adequar à nova situação política. As Armas de Portugal foram substituídas pelas do Império e acrescentou-se a frase “IN HOC SIGNO VINCES” (“Com este sinal vencerás”).

Já que o “Brasil era nosso”, com o tempo algumas padronizações foram necessárias. Como a população já estava acostumada com o “Réis” como sendo o dinheiro oficial e, graças à desvalorização através do tempo, o “Mil-Réis” é o que fazia parte de seu dia a dia, o então Imperador D. Pedro II (veja só: com apenas 8 anos de idade…) resolveu oficializar essa situação através da Lei nº 59, de 08/10/1833, de modo que o Mil-Réis passou a designar a unidade monetária e Réis os valores divisionários (algo como nossos centavos de hoje em dia). Na mesma época ficou conhecido o Conto de Réis, que correspondia a 1 milhão de Réis ou mil Mil-Réis.

Confuso? Nem tanto. Imaginemos a importância de “2 contos, 320 mil e 160 Réis”. Sua grafia seria assim: R2:320$160.

A nova “família” de moedas criada desde então, ainda que com os mesmos valores de referência de réis, foi conhecida como “Cruzados”.

Pois bem. Com o império já estabelecido era necessário garantir o progresso econômico do país, o que por sua vez exigia recursos monetários distribuídos por várias regiões. Para suprir essa demanda começaram a surgir bancos em diversas cidades brasileiras e, com as bênçãos do governo, cada qual emitindo dinheiro – isto é, tal qual na época de D. João VI, “bilhetes pagáveis ao portador”.

Foi um período interessante e de transformação para a população. Aquela “moeda de papel” foi aos poucos conquistando sua confiança, que começou a adquirir o hábito de usá-la em substituição ao conhecido dinheiro de metal – principalmente quando se tratava da necessidade de se transportar grandes quantias.

Mas Murphy é Murphy em qualquer época! Pra “ajudar” nos trancos e barrancos que um sistema monetário nacional incipiente e em surgimento por si só já tem, eis que desse nosso povinho começaram a surgir inúmeras falsificações. Lembram que, pela escassez dos metais nobres, predominavam as moedas de cobre? Então. Com esse tipo de metal em abundância, essas moedas eram facilmente falsificáveis. Para tentar acabar com isso a partir de 1833 o governo passou a emitir cédulas do Tesouro Nacional que serviam exatamente para substituir as moedas de cobre em circulação.

Vejam o furdúncio: além de todas aquelas antigas moedas em circulação, tínhamos as moedas de cobre falsificadas, os antigos bilhetes ao portador do extinto Banco do Brasil, as cédulas dos bancos locais e mais as cédulas emitidas para troca do cobre. E tudo circulando como moeda corrente! Era preciso começar a dar um basta nisso!

E foi assim que em 1835, não só visando resolver esse problema mas também para uniformizar as cédulas em circulação, o governo emitiu a primeira família de cédulas próprias, criadas e impressas na Inglaterra pela Perkins, Bacon & Petch.

Foi essa a primeira vez que o Tesouro Nacional assumiu o monopólio das emissões de dinheiro.

O Segundo Banco do Brasil

O segundo Banco do Brasil foi criado pelo Visconde de Mauá, e foi formado pela fusão do antigo Banco do Brasil com o Banco Comercial do Rio de Janeiro, tendo iniciado suas atividades em 1854, passando a ser o único emissor de moeda.

Com a generalização do uso de cédulas, a cunhagem de moedas direcionou-se para a produção de valores destinados ao troco. O cobre foi sendo substituído por ligas modernas, mais duráveis, de modo a suportar a circulação do dinheiro de mão em mão. A partir de 1868 foram introduzidas moedas de bronze e a partir de 1870 moedas de cuproníquel (uma liga de cobre e níquel). Com essa palavrinha difícil para a população – “cuproníquel” – por comodidade foi anunciada como se fosse apenas de “níquel”; e daí, dada a nossa brasileira facilidade de criar apelidos para seja lá o que for, de “níquel” pra “Nicolau” foi só um instante…

No tocante às cédulas, no decorrer do tempo as mesmas muitas vezes eram fabricadas com diversas estampas (com as figuras/apresentação diferentes), ainda que com o mesmo valor, por conta das falsificações. Pela ordem cronológica, ainda durante o Império, foram lançadas pelo Tesouro Nacional as seguintes cédulas:

1.000 Réis (lançada em 1835, teve 7 estampas). A sétima, de 1888, possuía na face o Museu Imperial de Petrópolis à esquerda e D. Pedro II à direita; no verso, a estátua equestre de D. Pedro I, com a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e valor facial.

2.000 Réis (lançada em 1835, teve 8 estampas). A oitava, de 1888, possuía na face D. Pedro II à esquerda e a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo (Rio de Janeiro) à direita; no verso, a Rua Direita, no Rio de Janeiro.

5.000 Réis (lançada em 1835, teve 9 estampas). A nona, de 1888, possuía na face D. Pedro II à esquerda, um querubim ao centro e a Alegoria das Artes à direita; no verso, as Armas do Império, a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e valor facial.

10.000 Réis (lançada em 1835, teve 8 estampas). A oitava, de 1888, possuía na face D. Pedro II à esquerda, o Brasão do Império ao centro e a Alegoria da Fortuna à direita; no verso, as Armas do Império, a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e valor facial.

20.000 Réis (lançada em 1835, teve 8 estampas). A sexta, de 1870, possuía somente a face, com a vista do Ancoradouro do Rio de Janeiro ao centro e figuras alegóricas à esquerda e à direita.

50.000 Réis (lançada em 1835, teve 6 estampas). A segunda, de 1839, possuía somente a face, com o Brasão do Império do Brasil à direita e a Alegoria da Justiça com a data da independência brasileira ao centro.

100.000 Réis (lançada em 1835, teve 5 estampas). A quarta, de 1867, possuía somente a face, com a Alegoria do Descobrimento do Brasil ao centro e figuras alegóricas à esquerda e à direita.

200.000 Réis (lançada em 1835, teve 6 estampas). A quarta, de 1867, possuía somente a face, com D. Pedro II nos cantos superior esquerdo e inferior direito, bem como a Alegoria da Justiça ao centro.

500.000 Réis (lançada em 1836, teve 5 estampas). A quinta, de 1885, possuía na face D. Pedro II acima, o Brasão do Império à esquerda e uma mulher à direita; no verso, D. Pedro II à esquerda e a inscrição IMPERIO DO BRAZIL e Armas do Império à direita.

500 Réis (lançada em 1874, teve 2 estampas). A segunda, de 1878, possuía na face D. Pedro II ao centro, ladeado por duas figuras femininas; no verso, as Armas do Império do Brasil, a inscrição IMPERIO DO BRASIL e valor facial.

Aliás, uma curiosidade inútil: sabiam que D. Pedro II foi a personalidade cujo rosto mais apareceu na moeda brasileira?

Bem, nesta segunda parte dessa história pudemos verificar que esse negócio de emitir moeda não era fácil não! Desde priscas eras esse nosso povinho já tinha uma certa predisposição para querer levar vantagem em tudo, certo? (e olha que a “Lei de Gérson” somente viria muito tempo depois…), pelo que a falsificação era uma constante. Para tentar coibir isso, durante os 67 anos que durou o Império Brasileiro foi emitida uma variedade absurda de cédulas, sempre tentando cada vez mais melhorar a qualidade de sua confecção. Mas a vindoura República também teria seus próprios problemas!


E a Família Andrade, como vai?

Agora é que a história dá um nó! Lembram-se de meu tetravô que foi casado com a própria prima? Então. Ele era um dos mais velhos dentre seus 11 irmãos e teve meia dúzia de filhos, inclusive minha trisavó Maria da Glória Teixeira Guimarães, nascida em 1850. E eis que ela casou-se com Joaquim Theodoro de Andrade, um dos irmãos mais novos de seu pai. Sim, isso mesmo, ela casou-se com o próprio tio! Tudo bem, os tempos eram outros, as idades eram compatíveis e tudo ficaria em família mesmo… Mas isso dá um nozinho na cabeça, pois acabou que ele ficou sendo ao mesmo tempo tanto meu “tio-tetravô” quanto meu “trisavô”… Enfim, casaram-se e seu filho, meu bisavô, João Agnello de Andrade, nasceu em 1877. Mais tarde, logo após a virada do século, viria a casar-se com Iria Rita de Bem (descendente das famílias Novaes e Carneiro de Bem).


(Início da Saga)

(Continua…)

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